A cola

Os alunos estão cada vez mais criativos para colar. Ou eles sempre foram criativos ao extremo, e foram adaptando as formas de colar cada vez que uma ficava manjada pelos professores. Posso dizer que cola é uma epidemia – não se trata de um aluno, são todos eles em um movimento que poucos se recusam a aderir.

Não sei como lidar com a cola. Não era uma aluna que colava, mas também não afirmo que nunca passei cola nem debati uma questão qualquer da prova com meus colegas de sala. Hoje, professora do ensino superior, a cola está presente no meu dia-a-dia. Tento enfrentá-la com chantagem emocional – apelo para o sentimento de justiça dos alunos, digo que “lá fora” eles não poderão colar, e que a cola separa os que vencerão dos que fracassarão.

Pura balela.

A verdade é que a cola me sugere uma forma de rebeldia. Ela me faz refletir sobre todo o sistema e me faz pensar não “como impedir a cola” e sim “por que os alunos colam, afinal”. Sim, por que eles colam? Por que existe um motim em sala de aula para que os alunos subvertam o sistema e levem as respostas para a prova, ou, ao menos, as matérias que eles deveriam ter estudado? Por que eles simplesmente não estudam?

avaliação

Talvez eles estudem. É bem provável que estudem, pois não devem estudar o que eu acho que deveriam estudar ou o que o programa os obriga a estudar. É bem possível que o problema esteja no sistema, não nos alunos. Aliás, é o que faz mais sentido. Se todos colam – ou a maioria, preciso considerar que a culpa é minha, que tem algo errado acontecendo com o método avaliativo que impulsiona os alunos a burlarem as regras.

Tenho lido bastante sobre avaliação. A obra de Jussara Hoffman é inspiradora – ela me faz constatar que existe, sim, algo errado, mas que, apesar de sabermos disso, preferimos seguir com o fluxo. Descobri que, mesmo nunca tendo concordado com o sistema avaliativo classificatório, eu nunca fiz nada para mudá-lo – nem mesmo considerei fazer algo. Sempre me deixei levar pelas justificativas: o aluno prefere assim, o aluno não entende de outra forma, a sociedade exige, a culpa é dos concursos públicos! Na verdade, a culpa é mais minha, mesmo.

Continuo sem saber como lidar com a cola, com a grande certeza que a melhor forma ainda não é tentando impedir que o aluno cole, mas avaliando de forma que a cola não seja mais possível ou necessária.