A cola

Os alunos estão cada vez mais criativos para colar. Ou eles sempre foram criativos ao extremo, e foram adaptando as formas de colar cada vez que uma ficava manjada pelos professores. Posso dizer que cola é uma epidemia – não se trata de um aluno, são todos eles em um movimento que poucos se recusam a aderir.

Não sei como lidar com a cola. Não era uma aluna que colava, mas também não afirmo que nunca passei cola nem debati uma questão qualquer da prova com meus colegas de sala. Hoje, professora do ensino superior, a cola está presente no meu dia-a-dia. Tento enfrentá-la com chantagem emocional – apelo para o sentimento de justiça dos alunos, digo que “lá fora” eles não poderão colar, e que a cola separa os que vencerão dos que fracassarão.

Pura balela.

A verdade é que a cola me sugere uma forma de rebeldia. Ela me faz refletir sobre todo o sistema e me faz pensar não “como impedir a cola” e sim “por que os alunos colam, afinal”. Sim, por que eles colam? Por que existe um motim em sala de aula para que os alunos subvertam o sistema e levem as respostas para a prova, ou, ao menos, as matérias que eles deveriam ter estudado? Por que eles simplesmente não estudam?

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Talvez eles estudem. É bem provável que estudem, pois não devem estudar o que eu acho que deveriam estudar ou o que o programa os obriga a estudar. É bem possível que o problema esteja no sistema, não nos alunos. Aliás, é o que faz mais sentido. Se todos colam – ou a maioria, preciso considerar que a culpa é minha, que tem algo errado acontecendo com o método avaliativo que impulsiona os alunos a burlarem as regras.

Tenho lido bastante sobre avaliação. A obra de Jussara Hoffman é inspiradora – ela me faz constatar que existe, sim, algo errado, mas que, apesar de sabermos disso, preferimos seguir com o fluxo. Descobri que, mesmo nunca tendo concordado com o sistema avaliativo classificatório, eu nunca fiz nada para mudá-lo – nem mesmo considerei fazer algo. Sempre me deixei levar pelas justificativas: o aluno prefere assim, o aluno não entende de outra forma, a sociedade exige, a culpa é dos concursos públicos! Na verdade, a culpa é mais minha, mesmo.

Continuo sem saber como lidar com a cola, com a grande certeza que a melhor forma ainda não é tentando impedir que o aluno cole, mas avaliando de forma que a cola não seja mais possível ou necessária.

San Ramón, a cidade livre de discriminação

Hoje passei o dia inteiro na cidade de San Ramón, município da Costa Rica onde se localiza a Universidad de Costa Rica – Sede de Occidente (UCR). Foi lá que aconteceram os eventos do VI Encontro Internacional do CONPEDI na Costa Rica, concentrando painéis e grupos de trabalho, incluindo também um almoço delicioso e muita interação entre os participantes do evento e os estudantes da universidade.

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A apresentação de dança típica foi o momento cultural do dia.

Tudo me chamou a atenção, desde a beleza do campus até a gentileza gratuita dos estudantes, colaboradores e organizadores do evento. Eu, estrangeira, era tratada com respeito e consideração independentemente da minha dificuldade em me comunicar em castellano. Quem me conhece sabe que eu misturo pelo menos três idiomas quando tento falar castellano.

Fotos do belo campus da UCR
Também se come muito bem na Costa Rica. Tudo muito bem temperado e diversificado.

Mas foram duas coisas que me fizeram decidir escrever essa publicação: a presença de cães livres e bem tratados por todo o campus e a conversa que tive com Andrés, um jovem estudante que participou do nosso GT e que, além de uma bela contribuição para meus estudos, ainda me revelou um fato: San Ramón declarou-se oficialmente livre de qualquer discriminação. Sim, qualquer.

Sobre os cães, percebi-os em todos os espaços, inclusive naqueles que, no Brasil, eles são impedidos de frequentar. Não foram molestados por ninguém na universidade, ao contrário, via-os circulando livremente e sem temer a proximidade com humanos. Havia cães até mesmo no refeitório ou no banheiro feminino – um idosinho dormia tranquilamente sobre um tapete quando entrei.

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Ele não fugiu quando entrei; me deixou acariciá-lo e voltou a dormir.

Essa relação dos humanos com os animais não-humanos na universidade me acalentou, já que não vejo motivos para que cães, gatos ou outros habitantes do planeta sejam impedidos de conviver harmoniosamente conosco. Os cães da UCR não causaram qualquer distúrbio ou inconveniente aos humanos, apenas estavam por lá. Assim como os humanos não causavam a eles qualquer incômodo.

Já a fala de Andrés sobre San Ramón ser livre de discriminações surgiu quando os pesquisadores do GT decidiram tirar uma foto tendo uma frase escrita na parede como pano de fundo. A frase, “lucha y resistencia” era representativa do momento que o Brasil vivencia hoje, com a convocação das Forças Armadas para “manter a ordem” na cidade de Brasília, nossa capital. E também do que são os próprios direitos humanos, tema principal do GT: um processo de luta e resistência.

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Nós, em foto tirada pelo gentil e simpático Andrés.

Andrés me explicou o contexto da frase, decorrente de um movimento social dos estudantes da UCR que culminou com a declaração da cidade de San Ramón como livre de preconceitos e discriminações e respeitosa dos direitos humanos. Ele também me mostrou a bandeira da diversidade (o arco-íris) ao lado da bandeira do país.

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Pesquisei a história no Google, não por duvidar de Andrés, mas na intenção de conhecê-la melhor. Tivemos pouco tempo para conversar ao final das apresentações, e senti-me compelida a conhecer a história dessa declaração: foi em 10 de maio de 2016 que a municipalidade reconheceu San Ramón como livre de toda discriminação e respeitosa dos direitos humanos. Isso se deu porque, em 06 de maio, os estudantes da UCR mobilizaram-se em prol da diversidade e do respeito, o que levou representantes de várias entidades a apresentarem uma moção para a declaração, aprovada por unanimidade pelo conselho municipal.

Claro que a declaração é simbólica, mas o simbolismo é forte. Demonstra intenção, demonstra luta para que a diversidade seja respeitada e para que os direitos humanos sejam efetivos. Conhecer San Ramón, interagir com os muito simpáticos, empáticos e respeitosos estudantes da UCR e poder debater sobre direitos humanos, sobre movimentos sociais, sobre luta e sobre resistir enriqueceu minha experiência no evento.

Hoje deveria ser um bom dia. Enquanto no Brasil, eventos muito preocupantes e significativos de uma ruptura democrática ainda maior me entristeceram severamente, o que presenciei em San Ramón me deu esperanças. De alguma forma, é possível. Precisamos resistir. Precisamos nos manter de pé.