O Segredo de Esplendora – Cena extra “Sensações proibidas”

ATENÇÃO. A CENA ABAIXO CONTÉM SPOILER DA TRAMA SE VOCÊ NÃO LEU OS DOIS PRIMEIROS LIVROS DA TRILOGIA O SEGREDO DE ESPLENDORA.

Sensações proibidas
Cena extra – O Segredo de Esplendora

Era outro lindo e ensolarado dia em Esplendora. Havia pássaros no céu e as poucas nuvens não faziam nenhuma diferença para o sol. A esfumaçada Vanera podia ser vista ao longe, no horizonte, do lado esquerdo da cidade, enquanto o lado direito terminava em uma longa colina – A Cordilheira das Fadas. O quarto estava preenchido de um aroma de baunilha, e as cortinas sopravam com a brisa – mas não havia ninguém dormindo na cama. Até mesmo nas primeiras horas da manhã. Sentado em um sofá, as palmas das mãos suportando a face, Jophiel tivera uma noite terrível. Ele não conseguiu fechar os olhos e não conseguiu parar de pensar nela. Eles brigaram por tanto tempo que ele não se lembrava das razões que os levaram a começar a discussão.

— Você não entende. – Ela disse, irritada. – Você nunca vai entender, porque você é estúpido e não pensa! Você faz as coisas sem perceber o mal que elas podem causar àqueles que você ama, Jophiel! Eu não serei a responsável pelo sofrimento de ninguém!

Ah. Eles estavam discutindo sobre Seraphiel. Desde que eles compreenderam que se amavam – e eles fizeram aquilo tarde demais, eles brigavam sobre as coisas mais tolas. Sobre os mantos que deveriam vestir em reuniões do Conselho, sobre o tempo que ele passava em Vanera, a cada dia, sobre uma ou duas idas à Cordilheira das Fadas. E, então, eles estavam brigando por causa de Seraphiel e sua dificuldade em entender o relacionamento dos dois. Não que Seraphiel soubesse alguma coisa, mas ele podia perceber o quão próximos eles eram. Próximos demais. Ele não era cego, no final das contas.

— Eu entendo que te amo. – Ele gritou. Segurou-a pelos ombros e a sacudiu, violentamente. Ele queria beijá-la; ele queria segurá-la e mergulhar nos seus cabelos e perder-se dentro dela para sempre. Mas ele apenas a encarou com aqueles olhos azuis em fogo. Os olhos da agonia; ele estava se afogando no mar de sua própria agonia. – Eu não me importo se Seraphiel não consegue lidar com isso. Ele está crescido; nós seremos Anjos ascendidos em quatro anos!

— Essa é a diferença entre nós, Jophiel. – Havia tristeza em seus olhos, quando ela conseguiu livrar-se da prisão de seus dedos e pode olhar para ele. – Eu estou sempre pensando nos danos colaterais; você sempre pensa apenas em sua própria satisfação.

— Isso não é verdade. – Ele passou os dedos pelos cabelos escuros ondulados. – Eu geralmente só penso em você desde que você nasceu.

— E se você se preocupa comigo, você entenderá que não nascemos um para o outro. Não importa como me sinto sobre você. Não podemos ficar juntos.

E ela se foi, deixando para trás seu cheiro. Aquelas flores de baunilha que ainda estavam pelo quarto de Jophiel. Ele ergueu o olhar e sua expressão era a definição do desespero. Encarou uma parede branca e repentinamente deu-se conta de que estava cansado do branco, cansado do sol, cansado da luz. Ele queria fechar os olhos e perder-se na escuridão para sempre.

Um ruído chamou a sua atenção e ele virou sua cabeça para a porta. Jophiel pensava que todos na casa dormiam, porque Seraphiel nunca acordava cedo. Sua mãe e seu pai estavam ausentes – tinham uma daquelas intermináveis viagens de trabalho até o Mundo Inferior. Seus sentidos pareciam traí-lo, mas ele poderia jurar que estava ouvindo sinos tocando.

— Posso entrar? – A voz dela penetrou seus ouvidos como um punho lhe atingiria a face. Ele levantou-se, atabalhoadamente, e encarou a porta, enquanto Abdiel entrava no quarto. Novamente. – Desculpe-me, eu não queria acordá-lo.

— Eu não estava dormindo. – Ele disse e estava ansioso. Seus olhos brilhavam com o exterior. – Eu não consegui dormir; essa noite foi um pesadelo.

— Eu não devia estar aqui. – Ela começou um discurso. – Eu prometi para mim mesma que não viria, mas não consegui evitar. Também não dormi; estou partida em pedaços e não sei como remendar minha alma.

— Você carrega muita pressão em você, Abdiel. – Ele flutuou lentamente até ela. Seu coração batia rapidamente e fora de ritmo. – Você deveria deixar isso sair de você. Libere sua alma, e você não a sentirá partida novamente.

E ela fez isso. Liberar sua alma era o passo mais difícil que Abdiel daria em sua vida, mas ela o fez. Flutuou até Jophiel, que estava parado no meio do seu quarto, e parou à distância de um dedo de sua face. Eles estavam tão próximos que podiam sentir a respiração de cada um. Ele era alto, e ela olhava para cima para encontrar seus olhos. Sua face confusa a divertia; não havia nada mais belo do que Jophiel perdido em suas palavras. Ela ergueu as mãos e o tocou, e aquela foi a primeira vez que eles se tocaram daquela forma. Ele fechou os olhos. Ela passou os braços por seu pescoço e eles estavam tão próximos que sua pele também tocava a dele. Manto com manto, nada mais. Os dedos dela penetraram nos cabelos nervosos de Jophiel e ela colocou seus lábios sobre os dele, suavemente. Ele estremeceu, e viu-se momentaneamente muito assustado. O simples toque dos lábios de Abdiel causaram uma reação complicada em seu corpo, e ele sentiu-se como estivesse caindo em um abismo sem fim. Suas mãos a seguraram firme pela cintura e a puxaram com alguma violência, enquanto seus lábios forçavam os dela para se abrirem. Ele nunca havia beijado alguém, antes, mas ele sabia exatamente o que fazer. Ele sempre soube o que fazer com Abdiel, como se ela o completasse perfeitamente. Ele queria sentir o sabor que ela tinha e queria sentir o calor de seu toque, a umidade de sua língua. Ela rendeu-se a ele depois de alguns poucos segundos de hesitação, e amoleceu em suas mãos.

— Eu te amo. – Ela disse, quando eles, por um breve momento, soltaram os lábios uns do outro. – Eu te amo por tanto tempo que eu não lembro mais quando comecei a te amar.

— Eu te amo desde sempre. – Ele sorriu por sobre seus lábios. – Eu nunca não amei você, se isso conta.

Dizendo aquilo, ele a beijou novamente. Não gentilmente ou suavemente; ele a beijou com ferocidade e a segurou nos braços e a fez ficar o mais próximo dele que seria admissível. Seu corpo doía pela ansiedade; ele esperou por ela por tanto tempo que ele não conseguia evitar aquele comportamento. Ele a sentiu, trêmula, em suas mãos, mas não era de seu feito retroceder. A não ser que ela pedisse. Suas mãos a ergueram do chão e em um pequeno espaço de tempo ele a deitava sobre sua cama. Uma cama larga e cheia de lençóis de algodão branco, com travesseiros e almofadas por todo lugar; uma cama desfeita que ele não vinha usando muito. Ele não estava pensando quando fez aquilo, ou quando deitou-se por sobre ela, pressionando seu corpo contra o colchão.

— Você ficou louco? – Ela perguntou, sem forças para impedi-lo. – É manhã! Seraphiel está na casa! Não está?

— Eu não ligo. – Jophiel não parou de beijá-la enquanto falava. Eles estavam por entre os lençóis com o sol entrando pela janela aberta. – Por que você sempre se preocupa se Seraphiel está ou não está por perto?

— Porque ele não pode saber. – Ela o empurrou um pouco, separando-os. Jophiel franziu o cenho.

— Não, ele não pode. Mas Seraphiel nunca vem ao meu quarto; ele nunca chega perto do meu quarto. Meu irmão evita-me como se eu tivesse uma doença contagiosa, então você não precisa se preocupar. Além do mais, você não é barulhenta, é?

Abdiel arregalou os olhos, mas ela não devia surpreender-se muito. Jophiel era o único Anjo que conhecia o sarcasmo, então era compreensível que ele o usasse muito. Ela sorriu, e seu sorriso causou uma reação em cadeia. Ele a beijou novamente, e ela correspondeu ao beijo, significando que ela não mais interromperia o que eles estivessem fazendo. Suas mãos lentamente tocaram-no nas costas, traçando as linhas de sua coluna até seu pescoço, agarrando seus cabelos em seus dedos. Ele apoiou o corpo com os braços e soltou os lábios dela, movendo os beijos para seu pescoço, lenta e suavemente roçando os lábios em sua pele. Ela era tão suave que ele temia feri-la.

Ele surpreendeu-se vagamente quando ela começou a desabotoar seu manto. O manto branco e dourado, permeado com pérolas e diamantes. Ela estava sempre mais bonita quando vestia branco, e mais perfeita com dourado. Jophiel a encarou, perplexo, por um momento, tentando assimilar se aquilo estava mesmo acontecendo. Os dedos longos e magros abriram três dos cinco botões antes que ele a impedisse de prosseguir.

— Você tem certeza absoluta disso? – Ele perguntou, mesmo já sabendo a resposta.

— Pelos céus, Jophiel. – Ela franziu a testa. – Eu não acredito que você está agindo como um cavalheiro agora. Se eu não estivesse certa de alguma coisa, você acha que eu permitiria que você me deitasse em sua cama? Acha mesmo que sou tão ingênua assim?

Ela parecia zangada, e ele deu uma gargalhada. Claro que ele sabia a resposta; ela era Abdiel. Ela estava sempre certa de tudo que fazia; mas ele sentiu a necessidade de perguntar. Ele assumiu a difícil tarefa de desabotoar o manto e lentamente descobriu o corpo dela. Não podia estar mais maravilhado com a visão do que ela era – perfeita, sem falhas, linda. Ele sempre soube que Abdiel era linda, mas a confirmação daquele fato foi surpreendentemente boa. Ela agarrou a barra de seu manto e puxou-o pelos braços dele, muito mais prática do que lutar com botões e zíperes.

Ela o encarou por um pequeno instante, afastando-o novamente. Ele ergueu uma sobrancelha, tentando compreender o que ela queria. Sua expressão era de puro deleite, e seus lábios estavam partidos em um sorriso nada tímido. Eles nunca tinham feito aquilo antes; não era o tipo de coisa que Anjos fizessem levianamente. Esplendora não tinha regras muito restritas sobre os relacionamentos dos Anjos, mas eles foram ensinados que a experiência física era muito intensa e muito íntima para ser compartilhada frivolamente. Anjos não se beijavam ou se tocavam muito frequentemente; eles não tinham o hábito do contato físico. Mas aqueles dois eram diferentes dos outros Anjos. Ela moveu-se rapidamente e posicionou-se por sobre ele, os olhos em perfeito contato. Seu manto escorregou por seus braços e ela sentiu a aspereza da pele dele contra a sua.

— Essas sensações são tão proibidas. – Ela sussurrou em seus ouvidos; os lábios traçando os contornos da orelha.

— Eu adoro o que é ilegal. – Ele riu, e em um segundo estava por sobre ela novamente. – Mas se eu quero você tanto assim, é porque eu te amo. Eu não quero uma experiência física com nenhum outro Anjo; eu nunca quis nenhuma outra criatura, Abdiel. Eu só quero você.

E em um momento eles estavam completamente perdidos em si, amando-se como se não existisse tempo depois. Como se eles pertencessem um ao outro tão permanentemente que machucasse separá-los. Como se eles não estivessem aprisionados pelo destino que tinham que encarar; como se Esplendora nem mesmo existisse.

— Como você está se sentindo? – Ele perguntou a ela, enquanto o sol fazia sombra no quarto.

— Completa. – Ela abriu-se em um sorriso e olhou para ele. Deitada ali, ao lado dele, amparada em seus braços, descansando a cabeça em seu peito, respirando o aroma de sua pele, ela estava preenchida com alegria. – Há quanto tempo estamos aqui?

— O suficiente para sentirem nossa falta. – Ele beijou-a na testa. – Você quer sair?

— Não, nunca. – Abdiel estremeceu quando pensou em separar-se de Jophiel novamente. Ela não queria sair de seu abraço, de sua cama, de seu corpo. – Podemos ficar aqui para sempre? Assim?

— Eu gostaria que pudéssemos. Mas temos que comer, dormir, fazer outras coisas, não temos?

Ela riu. Ele selou seus lábios com os dedos, e sua expressão endureceu-se imediatamente, apreensiva. Passos foram ouvidos do lado de fora do quarto e alguém – ou alguma coisa – bateu na porta. Abdiel escondeu a face com o lençol branco, e Jophiel comprimiu-a nos braços, como se pudesse fazê-la desaparecer por um momento.

— Irmão? – A voz de Seraphiel ecoou no silêncio. – Está aí dentro?

— Sim. O que você deseja?

— O Conselho reunir-se-á em algumas horas; eles solicitam nossa presença. Você, eu e Abdiel.

— Eu não vou. – Jophiel disse quase que para si mesmo. Ele podia visualizar Seraphiel parado no corredor, tentando seu melhor para não aproximar-se muito da porta. Seraphiel era um arrogante, era o que Jophiel e Abdiel pensavam. Ele era irritante e sempre preocupado com o Conselho e suas regras. Eles tinham vinte e um anos; tinham muito pouco tempo para viver antes de ascenderem e serem obrigados a assumir o governo de Esplendora nas mãos. Muita pressão para jovens, eles sabiam. Abdiel era um mês ou dois mais jovem que eles, e tudo que ela queria era paz. Ela não foi seduzida pelo poder.

— Você sai em alguns minutos. – Ela sussurrou para ele. Ele fez uma careta, mordendo o lábio inferior. – Vamos, Jophiel. Seja forte, temos que ir.

— Já estou saindo. – Ele disse. – Você poderia, por favor, avisar Abdiel? Eu não quero ir até aquele Anjo agora, estou muito preguiçoso para atravessar a cidade até a sua casa.

Os passos se afastaram dos ouvidos atentos do casal, e eles sabiam que Seraphiel tinha saído. Ele obviamente iria até Abdiel, porque ele sempre fazia tudo que o Conselho mandava. Quando tudo que havia sobrado era o silêncio, Jophiel afastou os lençóis para descobrir a face do Anjo, que tinha um largo sorriso em seus lábios, dentes muito brancos à mostra. Algo o estava distraindo.

— O que você está fazendo aí embaixo?

— Brincando. – Ela deu uma gargalhada.

— Isso faz cócegas, Abdiel! Você podia entregar nosso segredo se eu começasse a rir aqui. – Jophiel protestou, mas ele não estava zangado. Ele estava aproveitando o máximo estar com o Anjo que ele amava, mesmo se aquela pudesse significar a sua primeira e última vez juntos.

— Você quer que eu pare? – Ela provocou e ele atacou seus lábios, beijando-a com violência e prendendo-a com suas mãos. – Tudo bem, eu me rendo! Eu me rendo!

— Temos que ir. Eu não quero, mas temos que ir, certo?

— Sim, temos. – Ela tentou parar de rir e recompor-se. – Seraphiel não vai me achar em casa, eu estarei com o mesmo manto de ontem; estou tão errada!

— Meu irmão é um idiota. – Ele beijou-a nos lábios mais uma vez. – E você podia vestir esse manto todo dia; você está a definição da beleza com ele. Bem, vamos nos vestir e sair daqui, ou não me responsabilizo se não conseguir mais tirar as mãos de você.

Stuart

Explicações sobre a foto: Toda vez que idealizo Stuart em meu mundo imaginário, ele se parece exatamente com Spike (de Buffy, the vampire slayer). A diferença: Stu tem olhos mais azuis. Fora isso…

ATENÇÃO, informações adicionais sobre Stuart podem conter spoilers sobre A Origem e Ascensão.

O vampiro que inicia a trilogia ao lado de Henry é Stuart, um jovem loiríssimo, de olhos absurdamente azuis, pele quase transparente, que não se recorda praticamente nada de seu passado – sabe que é um vampiro e que foi encontrado, vagando, por seu atual companheiro de covil.

Stuart tem uma personalidade forte e um gênio bastante complexo. É mal humorado e ranzinza, usualmente contestando a humanidade que Henry insiste em cultivar. Não se importa em matar para se alimentar, só bebe sangue humano e gosta de passar a noite em Point Hill, uma cidade vizinha a Graceland, de vida noturna bastante intensa. Sem limites morais que o impeçam, Stuart costuma relacionar-se sexualmente com as jovens de quem se alimenta, enfeitiçando-as depois para que não se recordem dele.

Apesar desse perfil pouco humano, Stuart esconde um segredo que nem ele mesmo sabe – a sua verdadeira origem. Desde que os vampiros conheceram Heather e descobriram que a jovem era, na verdade, um Anjo, as suas semelhanças com Stuart incomodam o curioso Henry. Como parece ser impossível que um vampiro velho tenha qualquer relação com um ser iluminado, a situação acaba sendo esquecida até que Jophiel, o Anjo Negro banido de Esplendora, decide aparecer em Graceland e contar a verdade a Stuart: ele é, na verdade, o Anjo Barakiel, transformado em vampiro a pedidos do próprio Anjo Negro, para fazer companhia e cuidar de Henry.

Stuart não gosta do relacionamento entre Henry e Heather, inicialmente, porque considera que um ser das trevas não pode interagir deliberadamente com um Anjo. Apesar da resistência, ele se vê obrigado a conviver não somente com o namoro do amigo quanto com o Anjo Heather e sua instabilidade. No decorrer da trama Stuart revela um lado seu que ele sempre fez questão de deixar escondido e que considera uma fraqueza, mas que se torna evidente quando ele tem a oportunidade de se humanizar cada vez mais.