A discriminação oculta no humor depreciativo e a violência de gênero

Ontem, nas minhas andanças pelas redes sociais, deparei-me com colegas discutindo sobre uma publicação que apresentava dois livros de piadas. Um, azul, era “Piadas sobre meninas – para meninos lerem”. Outro, rosa, era “Piadas sobre meninos – para meninas lerem”. A discussão tinha dois focos distintos: 1) O machismo descarado do livro azul, que reforçava diversos estereótipos falsos sobre mulheres e que incitava a violência de gênero e o bullying e 2) Os motivos que levavam a discussão focar no livro azul, já que o livro rosa era igualmente ofensivo e incitava o bullying de meninas contra meninos, o que poderia dar tão errado quanto o inverso. Prometi a um amigo que falaria aqui sobre isso, mas é tanta coisa para ser dita que precisei de um tempo para esquematizar o texto. Vamos lá.

Primeiramente, fora Temer. Segundamente, precisamos entender que a desigualdade de gênero, assim como a violência de gênero, especificamente no âmbito da violência contra mulheres, é um problema de educação. Não temos poucas leis, ou leis brandas demais, ou pouca punição para agressores. O que temos é a insistente permanência de um modelo social patriarcal que submete as mulheres e as coisifica, que as coloca como seres naturalmente inferiores aos homens, que banaliza o feminino. Esse modelo é secular e já está tão enraizado culturalmente que nem mesmo conseguimos enxergá-lo.

Esse modelo heternormativo de inferiorização e imbecilização da mulher é cultural. Ele pode ser substituído por outro, claro, mas, para isso, temos que, primeiro, admitir que ele existe. Temos que admitir que, em pleno Século XXI, mulheres ainda são tratadas como desiguais e submissas ao homem. Temos que admitir que, mesmo depois de tanta evolução, mulheres ainda são assassinadas por se separarem de seus companheiros, estupradas por usarem shorts, ridicularizadas por serem mulheres. Se aceitarmos isso, estamos em um caminho.

Depois, precisamos mudar a forma de educar nossas crianças. Simone de Beauvoir, em sua mais festejada obra “O Segundo Sexo”, explicou graficamente como a educação de meninos e meninas sustenta e legitima o patriarcado e a desigualdade de gêneros. O menino, criado para ser livre, tem o mundo como limite para o seu ser. A menina é domesticada e docilizada, fragilizada, confinada a um universo restrito ao lar e seus afazeres. Educados dessa forma, eles e elas crescem “sabendo o seu lugar”: o menino é o todo-poderoso que ocupa os espaços públicos e é membro integrado da sociedade. O menino é o cidadão, ele é politizado e talhado para ser quem quiser ser. Já a menina é “do lar”. Ela foi criada para ser esposa e mãe, apenas. Essas foram as opções dadas a ela; a menina acredita que ela é naturalmente as duas coisas.

Para Susan Moller Okin, nada vai mudar enquanto não mudarmos a forma como a mulher é enxergada no espaço familiar (o privado). Não é suficientemente eficaz compreender que a mulher tem espaço na sociedade (pode ocupar os espaços públicos, nas palavras de Hannah Arendt), que tem direito a voto, direito de trabalhar, direito de estar representada em espaços políticos se continuarmos a tratá-la como incapaz, frágil e submissa no âmbito da família. Se a menina continua sendo criada para ser mãe e esposa, se os papéis atribuídos a ela continuam sendo os de mera coadjuvante no universo, que é masculino, o patriarcado continuará ali, sendo o modelo definidor de nossa sociedade.

Por que esse discurso preliminar sobre criação de meninos e meninas? Porque ele tem tudo a ver com as razões de existir dos livros em debate. As piadas do livro azul são a reprodução insistente de estereótipos de gênero que colocam a mulher no lugar que o patriarcado espera que ela esteja. Só que essas piadas não são engraçadas. Elas não são para fazer rir, são a representação do que a sociedade patriarcal determina sobre mulheres em uma tentativa de “catequizar” os meninos para que eles acreditem na mesma coisa. Alguns exemplos do livro azul:

Por que a estátua da liberdade é mulher? Porque precisavam de uma cabeça oca para colocar o mirante.

Como se chama uma menina com meio cérebro? Superdotada.

O que são vinte garotas colocadas em fila, orelha com orelha? Um túnel de vento.

O que essas supostas piadas representam? A mulher não é inteligente, não tem capacidade de pensar, é naturalmente burra. Isso não é verdade mas, mesmo que saibamos disso, continuamos a repetir como se fosse engraçado. É lavagem cerebral que fazemos em meninos para que eles acreditem nisso. E fazemos essa lavagem cerebral nas meninas também, para que elas mesmas se achem menos capazes. Com isso, alijamos as mulheres dos espaços públicos, da política, do empreendedorismo, do mercado, pois elas não são boas o suficiente para isso, não são espertas, não são “talhadas” para essas atividades. Mulheres ficam em casa, cuidando dos afazeres domésticos, que é o que elas sabem fazer bem.

Alguns vão dizer que o mundo está chato. Aliás, ouço isso com frequência sempre que me insurjo contra piadas-bullying machistas, racistas, gordofóbicas, homofóbicas, transfóbicas, etc. Quando digo que esse tipo de piada está no século retrasado, sou rotulada de feminazi chata. Não, o mundo não está chato. É que esse tipo de piada nunca teve graça para as minorias nelas representadas. Esse tipo de piada só teve graça até hoje entre as maiorias que oprimem. A diferença de alguns anos atrás para o hoje talvez seja a voz. Minorias que sempre foram ridicularizadas em piadas não estão mais caladas. E a voz dos oprimidos incomoda demais aqueles que desejam permanecer no status quo de sua dominância.

Sobre a discussão que leva à ênfase exacerbada ao livro azul sem menção ao livro rosa, também quero dar a minha contribuição. Não podemos excluir os homens do movimento feminista. Não podemos usar o movimento feminista, que busca colocar fim a séculos de desigualdade de gênero, como forma de exclusão, pois não estaremos atingindo os objetivos do movimento. Homens podem propagar o feminismo assim como mulheres podem propagar o machismo (e o fazem diariamente). Se excluirmos os homens dos debates feministas eles não poderão fazer parte do processo de reconstrução do modelo de sociedade, esse modelo igualitário que desejamos.

Da mesma forma, não podemos ignorar o bullying praticado por mulheres contra homens. Alguns e algumas me dizem que é “chumbo trocado” e que os homens estariam “provando do próprio remédio”, mas eu não consigo ver dessa forma. Uma agressão injusta não legitima outra agressão injusta em troca, como se uma anulasse a outra e ninguém saísse prejudicado. Uma sociedade melhor não será construída com ofensas que só servem para agravar as desigualdades entre gêneros. O livro rosa é tão ofensivo e tão desnecessário quanto o livro azul, e merece ser repudiado da mesma forma.

Precisamos parar de ensinar os dogmas do patriarcado para nossos meninos e nossas meninas. Precisamos desconstruir o machismo por meio da educação, eliminando estereótipos de gênero e papéis de gênero que não se sustentam empiricamente. E precisamos fazer isso educando tanto meninos quanto meninas. O feminismo é uma via complexa de mudança, e essa mudança só será conquistada com muito esforço conjunto.


Referências desse texto:

ARENDT, H. A condição humana. 10. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007.

BEAUVOIR, S. O segundo sexo. Versão digital. 2.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.

OKIN, S. M. Women in western political though. Princeton: Princeton University Press, 2013.

_______. Gênero, o público e o privado. Estudos Feministas. V. 16. N. 02. Florianópolis, mai/ago 2008. Pp. 305-332.

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Bela, recatada, do lar e do Século XIX

A Veja, sempre ela, publicou matéria realizada com a futura-quem-sabe-pode-ser primeira-dama, esposa de Michel Temer, cujo nome eu desconhecia até então. Aliás, nem sabia que ele era casado. Não que a vida pessoal daquele que me representa não seja importante, mas, a verdade é que Michel Temer não me representa em nada.

Bem, a matéria é um festival de futilidades do início ao fim. Fala sobre Marcela Temer e suas qualidades, não sei bem com que objetivo. Retrata uma mulher à sombra de alguém, e utiliza adjetivos que deveriam servir para qualificar uma mulher no Século XIX, não no XXI. Alguns defendem a matéria, dizendo que não tem problema algum ser bela, recatada e do lar, outros dizem que se trata da tentativa de impor um padrão conservador às mulheres. Bem, é.

Bela não deveria ser adjetivo fácil. Belas somos todas nós. A beleza física é tão subjetiva que deveria ser deixada como elogio de segundo plano. Claro que, provavelmente, toda mulher quer se sentir bela. Quer ser bela. Mas todas são. Beleza não pode ser um padrão definido. Olhando Marcela Temer, branca, loira e magra, eu vejo aí um padrão que a indústria da beleza já impôs faz bastante tempo e que leva centenas de mulheres à morte todos os anos. Esse padrão que obriga mulheres lindas a se mutilarem com cirurgias plásticas desnecessárias, a perderem a saúde com tratamentos milagrosos de beleza, a morrerem de anorexia e bulimia. Então, por que fazer questão de categorizar Marcela Temer como bela se, no final, somos todos belos e belas em nossas particularidades?

Recatada, por favor, nem é uma qualidade a se enaltecer. Se temos recatada simplesmente como timidez ou quietude, isso nem sempre é bom porque impede as pessoas de uma socialização plena. Como somos animais sociais, os tímidos são os que mais sofrem pela falta de inserção nos ambientes e pelas dificuldades de relacionamento. Se temos recatada como sinônimo de pudor ou pureza, isso é definitivamente coisa do século retrasado. Relevar a pureza de uma mulher é reforçar padrões conservadores que sugerem que mulheres não podem se expor, não podem aparecer, não podem protagonizar, não podem fazer sexo, não podem ter prazer, não podem ser vadias. Não é exagero nem paranóia, são séculos de opressão que ensinaram às mulheres o que é recato.

Toda mulher passou a vida ouvindo que precisa se comportar. Que tem que se dar ao respeito. Que precisa usar roupas adequadas (isso existe?). Que não pode se expor demais. Que tem que ser submissa ao homem. Que, se um homem a canta, é elogio, mesmo quando ela não está a fim. Que, se um homem a assedia, é porque ela está provocando. Que mulher “de verdade” cuida da casa, do marido, dos filhos. Esse é o recato que as mulheres sabem bem o que é.  E apenas quem é mulher o entende dessa forma. Algumas não percebem, tão doutrinadas estão para acreditar que recato é característica de uma mulher “de verdade”. As outras são apenas vadias.

Dói também ver uma revista tão lida sugerir que “do lar” seja uma coisa muito legal para as mulheres hoje em dia, quando tentamos nos firmar em um mercado de trabalho machista e que exclui as mulheres porque elas engravidam, têm TPM, são “mais fracas”, entre outras desculpas do tipo. Chega dar pena ler que Marcela Temer é uma vice-primeira-dama (nem sabia que isso existia…) que resume seus dias em buscar o filho na escola e ir à dermatologista, porque a superficialidade da matéria sugere exatamente isso. A forma como o “do lar” é colocada induz a uma percepção de que Marcela Temer é uma fútil madame rica que passa o tempo fazendo nada. Não sabemos das empregadas que ela deve ter e do que ela realmente faz, mas “do lar” ela, efetivamente, não é.

Sabe quem é mulher do lar? Aquela guerreira que acorda cedo, arruma filho, faz o café, leva filho na escola, arruma a casa, faz o almoço, pega o filho, lava a louça, cuida do filho, cuida dos cachorros/gatos/periquitos, arruma mais a casa, lava a roupa, passa a roupa, faz o dever com o filho, lava a garagem, vai ao supermercado, faz o lanche, lava mais louça, faz o jantar, recebe o marido com um beijo e com a mesa pronta, arruma a cozinha, dá banho no filho, arruma a cama, e só vai dormir depois que todo mundo foi. Essa mulher que é tão Século XIX mas que, ainda nos dias atuais, está em todos os lugares. Alguém que escolheu (?) ser do lar, ou que não teve outra opção, mas que batalha uma jornada incansável de um trabalho que não é reconhecido por quase ninguém – nem mesmo pela própria família da qual ela cuida.

Marcela Temer é essa mulher? Não pareceu. O que a matéria evidenciou, propositalmente ou não, foi: ela é uma madame, que nada faz, não trabalha e não produz, e usa o tempo que tem para… nada. Para futilidades. Para planejar viagens. Para ir ao salão de beleza – afinal, ela tem que ser bela! Papel da mulher no mundo conservador é esse, estar em casa e enfeitar ao lado do marido quando ele precisa de enfeite. Esse estereótipo não ajuda em nada a luta travada por mulheres empoderadas que buscam seu lugar no mercado de trabalho, que buscam reconhecimento de seus protagonismos na vida. Mulher não tem que viver à sombra de um homem. Mulher não é a esposa ou a mãe. Mulher é ela mesma. É sujeito, não predicado.

A matéria sugere que boas mulheres são assim. Belas, recatadas, do lar. Isso significa que existem as feias, as vadias, as do mundo. Isso significa que as feias, as vadias, as que vão para a rua, não são boas mulheres. Isso significa jogar no lixo décadas de luta feminista e a batalha diária pelo reconhecimento do papel feminino na sociedade.

Então, desculpem os homens, mas a matéria é machista, sim. Vocês não sabem o que significa ter que lidar com esses rótulos a vida inteira, então cuidado ao se manifestar sobre assuntos que vocês desconhecem. E para as mulheres que defendem a matéria, eu sinto muito. Lamento que vocês sejam tão doutrinadas a serem “belas, recatadas e do lar” que não consigam enxergar o machismo nosso de cada dia. Espero que vocês sejam felizes em suas escolhas, porque nós, as feministas mimizentas que reclamam de tudo, vamos continuar lutando para que vocês tenham direitos e sejam respeitadas como mulheres que são.

PS: Marcela Temer gosta de vestidos até os joelhos. Eu gosto de decote, alcinha, short, legging e transparência. Parece que sou vadia!

PS2: Eu abuso do sarcasmo e da ironia nos meus textos. Se você não entendeu, leia novamente. Não me leve tão a sério, porque eu vou ironizar tudo que considerar merecedor da minha ironia.