San Ramón, a cidade livre de discriminação

Hoje passei o dia inteiro na cidade de San Ramón, município da Costa Rica onde se localiza a Universidad de Costa Rica – Sede de Occidente (UCR). Foi lá que aconteceram os eventos do VI Encontro Internacional do CONPEDI na Costa Rica, concentrando painéis e grupos de trabalho, incluindo também um almoço delicioso e muita interação entre os participantes do evento e os estudantes da universidade.

IMG_1454
A apresentação de dança típica foi o momento cultural do dia.

Tudo me chamou a atenção, desde a beleza do campus até a gentileza gratuita dos estudantes, colaboradores e organizadores do evento. Eu, estrangeira, era tratada com respeito e consideração independentemente da minha dificuldade em me comunicar em castellano. Quem me conhece sabe que eu misturo pelo menos três idiomas quando tento falar castellano.

Fotos do belo campus da UCR
Também se come muito bem na Costa Rica. Tudo muito bem temperado e diversificado.

Mas foram duas coisas que me fizeram decidir escrever essa publicação: a presença de cães livres e bem tratados por todo o campus e a conversa que tive com Andrés, um jovem estudante que participou do nosso GT e que, além de uma bela contribuição para meus estudos, ainda me revelou um fato: San Ramón declarou-se oficialmente livre de qualquer discriminação. Sim, qualquer.

Sobre os cães, percebi-os em todos os espaços, inclusive naqueles que, no Brasil, eles são impedidos de frequentar. Não foram molestados por ninguém na universidade, ao contrário, via-os circulando livremente e sem temer a proximidade com humanos. Havia cães até mesmo no refeitório ou no banheiro feminino – um idosinho dormia tranquilamente sobre um tapete quando entrei.

IMG_1477
Ele não fugiu quando entrei; me deixou acariciá-lo e voltou a dormir.

Essa relação dos humanos com os animais não-humanos na universidade me acalentou, já que não vejo motivos para que cães, gatos ou outros habitantes do planeta sejam impedidos de conviver harmoniosamente conosco. Os cães da UCR não causaram qualquer distúrbio ou inconveniente aos humanos, apenas estavam por lá. Assim como os humanos não causavam a eles qualquer incômodo.

Já a fala de Andrés sobre San Ramón ser livre de discriminações surgiu quando os pesquisadores do GT decidiram tirar uma foto tendo uma frase escrita na parede como pano de fundo. A frase, “lucha y resistencia” era representativa do momento que o Brasil vivencia hoje, com a convocação das Forças Armadas para “manter a ordem” na cidade de Brasília, nossa capital. E também do que são os próprios direitos humanos, tema principal do GT: um processo de luta e resistência.

IMG_1473
Nós, em foto tirada pelo gentil e simpático Andrés.

Andrés me explicou o contexto da frase, decorrente de um movimento social dos estudantes da UCR que culminou com a declaração da cidade de San Ramón como livre de preconceitos e discriminações e respeitosa dos direitos humanos. Ele também me mostrou a bandeira da diversidade (o arco-íris) ao lado da bandeira do país.

IMG_1476

Pesquisei a história no Google, não por duvidar de Andrés, mas na intenção de conhecê-la melhor. Tivemos pouco tempo para conversar ao final das apresentações, e senti-me compelida a conhecer a história dessa declaração: foi em 10 de maio de 2016 que a municipalidade reconheceu San Ramón como livre de toda discriminação e respeitosa dos direitos humanos. Isso se deu porque, em 06 de maio, os estudantes da UCR mobilizaram-se em prol da diversidade e do respeito, o que levou representantes de várias entidades a apresentarem uma moção para a declaração, aprovada por unanimidade pelo conselho municipal.

Claro que a declaração é simbólica, mas o simbolismo é forte. Demonstra intenção, demonstra luta para que a diversidade seja respeitada e para que os direitos humanos sejam efetivos. Conhecer San Ramón, interagir com os muito simpáticos, empáticos e respeitosos estudantes da UCR e poder debater sobre direitos humanos, sobre movimentos sociais, sobre luta e sobre resistir enriqueceu minha experiência no evento.

Hoje deveria ser um bom dia. Enquanto no Brasil, eventos muito preocupantes e significativos de uma ruptura democrática ainda maior me entristeceram severamente, o que presenciei em San Ramón me deu esperanças. De alguma forma, é possível. Precisamos resistir. Precisamos nos manter de pé.

Direitos humanos em cheque #2

Direitos humanos não são uma questão de opinião.

Opinião todo mundo tem, sobre tudo e todos. Sempre que tomamos conhecimento de algo, mesmo que superficialmente, queremos opinar sobre. Emitimos opinião até sobre o que nem conhecemos, sobre o que ouvimos dizer. Como dito na publicação anterior, a inclusão digital e as redes sociais trouxeram a público nossas opiniões – e, com isso, inundamos o planeta com discursos odiosos sobre tudo que é diferente.

Opinião sobre direitos humanos fundamentais é o que não falta. Tem quem emita opinião sobre casamento, sobre inclusão, sobre acesso à educação, sobre direito de andar em público, sobre vestimentas, sobre religião – tudo dos outros. A vida alheia é objeto de análise direta e indireta e nossas opiniões ditam o que outras pessoas podem ou devem fazer para que sejam “pessoas” ou “normais” ou “de bem”.

Acontece que direitos humanos não são uma questão de opinião.

Somos todos iguais. Somos humanos, temos os mesmos direitos. Se a sua opinião é no sentido de restringir o acesso a direitos por determinados grupos, sua opinião é discriminatória e viola a Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948. Se sua opinião é no sentido de impor a outros o não gozo de direitos que você tem, a sua opinião é discurso de ódio.

dirhum

Os direitos humanos não fazem diferença de raça, sexo, credo, região, cor da pele, tipo de cabelo, tatuagem, roupa que veste. Os direitos humanos são para todas as pessoas humanas, todos que pertencem à raça humana. Não dá para ter opinião sobre quem pode ou não gozar de direitos que foram universalizados, direitos que correspondem à dignidade mínima que todo humano tem. Não dá para ter opinião sobre quais direitos determinadas pessoas podem acessar, pois os direitos humanos são indivisíveis. São tipo assim, para todas as pessoas, todos eles.

E, se você achou esse texto repetitivo, era para ser assim. Porque tem muita gente com opinião de que os direitos humanos foram feitos para eles, somente.