De Rodrigo Hilbert a Andy Murray – por que não devemos excluir os homens da luta feminista

Feminismo é inclusão. Não é “o contrário” do machismo, não apregoa a supremacia feminina. Feminismo é igualdade. Feminismo é uma luta histórica e sofrida que as mulheres travam… contra o patriarcado.

Não podemos compreender o feminismo sem compreender o patriarcado que sustenta a sociedade ocidental – e falo desta porque é a que me incluo, a que inclui os dois nomes do título dessa postagem, e a das pessoas para quem me dirijo. Como muito bem relevou Simone de Beauvoir em seu “O Segundo Sexo”, o patriarcado se escora em algumas regras, padrões e estereótipos que são inculcados nas crianças desde o nascimento, e estabelecem os papéis que homens e mulheres devem seguir.

O patriarcado é binário, só aceita homens e mulheres como gênero imposto, já que gênero é construção social. O patriarcado é excludente, pois determina que apenas homens tem direito aos espaços públicos. O patriarcado segrega, pois cria uma hierarquia de poder nos espaços privados, que invisibiliza a mulher, submetendo-a ao pai, depois ao marido. O patriarcado legitima a violência de gênero, pois tolera que homens agridam suas esposas e filhas em nome de uma disciplina necessária para manter a mulher submissa e obediente. O patriarcado mantém as mulheres cativas ao estabelecer códigos de conduta opressores, que impedem a liberdade feminina. O patriarcado fomenta a cultura do estupro, a culpabilização da mulher por sofrer violência sexual, o feminicídio.

Então, a luta feminista é, definitivamente, contra o patriarcado. Mas o patriarcado não são “os homens”, e não vejo como podemos vencer excluindo o masculino da nossa luta. Não se trata de colocar o homem no lugar de fala da mulher, ou de permitir que o homem fale em nome do feminismo, mas de convidá-los para lutar ao nosso lado. Meninos educados dentro do feminismo serão jovens que não tratarão as mulheres como posses, homens que compreenderão a igualdade entre os gêneros. Não temos como romper com o patriarcado se excluirmos metade da sociedade da nossa causa.

Por que Rodrigo Hilbert e Andy Murray entraram na conversa, então? Porque são homens que, recentemente e publicamente, romperam padrões machistas e demonstraram que educação faz toda a diferença (Beauvoir disse isso, Okin disse isso, sabemos disso mas nem sempre consideramos isso). Rodrigo Hilbert é famoso por aparecer na mídia com seu talento para cozinhar, faz crochê, cuida dos filhos, essas coisas que “são de mulherzinha”. Andy Murray virou notícia apenas por seu talento, mas por destoar da tradição de lembrar apenas os feitos masculinos, como se os femininos fossem sempre menores ou irrelevantes. Recentemente corrigiu sua entrevistadora para lembrar os feitos de Venus Williams em Wimbledon, já o tinha feito antes para evitar que as conquistas olímpicas das irmãs Williams ficassem de fora e já se pronunciou sobre a importância de homens e mulheres receberem os mesmos prêmios dos homens, confrontando diretamente seu colega Novak Djokovic.

Enquanto Rodrigo causa “mal estar” entre os homens, que consideram que ele estabelece “padrões muito elevados” para serem seguidos, a atitude de Murray choca e causa um frisson midiático imediato. Isso porque, em pleno Século XXI, defender a igualdade entre homens e mulheres, seja nos papéis domésticos, seja nos espaços de poder (públicos), ainda causa desconforto. Quando mulheres trazem o assunto, costumam ser chamadas de feministas vitimistas (quase que em uma relação indissociável entre os dois adjetivos). Quando são homens, ou querem aparecer ou são homossexuais, pois a frágil masculinidade do patriarcado está ligada ao cumprimento estrito dos papéis “de macho”.

Os homens podem e devem lutar ao nosso lado pela igualdade de gênero. Mais Rodrigos e mais Murrays surgirão da inclusão masculina no feminismo (mesmo que eles não sejam denominados feministas, mesmo que eles nem mesmo saibam que estão ali por uma causa) e, dessa forma, a ruptura com o patriarcado será possível. Não quero acreditar que devamos perseguir uma sociedade sem seres do sexo masculino, mas uma sociedade sem papéis estabelecidos para cada gênero. Nós rompemos com os nossos, eles rompem com os deles. Mas é o feminismo que viabilizará essa mudança.

O feminismo é libertação, e todos os seres humanos vão se beneficiar dele.

Uma réplica a um discurso machista.

Inicio essa publicação informando que meu texto de hoje é uma réplica a um texto escrito por Luis Felipe Pondé, publicado no dia de hoje (23.01.17) na Folha. Lembro-me que sempre me incomodou o fato da academia brasileira ser tão sensível, de ninguém criticar ninguém abertamente, de não se provocar o debate científico. Em meus estudos utilizando pensadores norte-americanos, sempre que um artigo me atraía ele acaba sendo a réplica a outro artigo, e com isso eu via o conhecimento científico sendo produzido. Ciência social não se faz placidamente, mas com muito debate e argumentação.

Pois Pondé, que possui um currículo acadêmico irrepreensível, escreveu, sem qualquer aparente motivo científico, um texto machista e com tantos argumentos equivocados que merece uma réplica. Afinal, frente esse tipo de texto, temos apenas duas opções: calar-nos ou debater. Como eu nunca me calo, decidi colocar aqui a minha pequeníssima contribuição para a discussão.

Preliminarmente, informo que não gosto de dar mídia a esse tipo de texto, mas que é impossível admitir um debate honesto sem que ele seja lido por quem desejar. Portanto, se você, leitor, ainda não teve contato com o texto que estou replicando hoje, pode clicar aqui para ler.

Resumidamente, o articulista argumenta que a emancipação feminina, como desejada pelos movimentos feministas, levará à extinção da raça humana. Ele explica que os homens, para “dar conta” das mulheres contemporâneas, terá que se tornar inteligente, e, com isso, vai perder o interesse nas mulheres, que terão que se esforçar muito para se tornarem interessantes para qualquer homem. Com isso, haverá menos casais heterossexuais, as mulheres serão obrigadas a procurar relacionamentos homossexuais, haverá menos filhos e, com isso, logo a raça humana estará extinta.

Bem, essas são minhas palavras, mas o texto dele disse exatamente isso. Demorei algum tempo para ler tudo pois, a cada parágrafo, eu duvidava que alguém da categoria acadêmica de Pondé tivesse escrito algo tão estilo teorias da conspiração machista como isso. Mas o texto está lá, assinado por ele, então preciso presumir que seja verídico. E, também, lembrei-me que erudição não livra ninguém das garras do patriarcado.

O articulista demonstra desconhecimento da luta feminista ao dizer que o homem vai se libertar e não vai mais querer saber das mulheres. Faço aqui um grande parêntese para situar o leitor: o feminismo é um movimento de mulheres, mas a libertação da mulher terá como consequência a libertação do homem. O patriarcado é um sistema complexo de opressão e as mulheres podem ser as maiores vítimas, porém não as únicas. As relações classe-sexo-raça estão imbricadas, homens jovens e crianças também sofrem dominação, assim como a situação de mulheres negras é mais grave do que a de mulheres brancas, apenas como exemplo.

Claro que o homem vai se libertar, isso decorre da libertação feminina e é esperado pelo movimento feminista. A ruptura do sistema patriarcal levará ao desmoronamento da heteronormatividade e seus estereótipos estigmatizantes, o que levará, obrigatoriamente, a uma reconfiguração das relações de sexo e gênero. O movimento feminista anseia por esse homem que respeitará a mulher, que não mais a enxergará como objeto sexual, que não mais terá o casamento como um contrato sexual “de adesão” em que a mulher serve apenas para cuidar da família e reproduzir.

Já disse antes em outro texto, mas não custa repetir: não é possível repensar o sistema e romper com o patriarcado sem repensar as relações familiares. O sistema familiar (patriarcal) de reprodução social é opressor e coloca mulheres em posição de objeto. A mulher é posse, é reprodutora de herdeiros e mão de obra gratuita, é um ser não pensante e não capaz de realizar outras tarefas que não as domésticas. A ideia de que mulheres anseiam naturalmente ser donas de casa e mães é inculcação do patriarcado, e a ideia de que mulheres precisam de homens para sobreviver também é. As relações familiares patriarcais são injustas em uma perspectiva de gênero e colocam as mulheres sempre em posição de submissão, sem escolha, sem liberdade para tomar as próprias decisões, dependentes de maridos e companheiros, incapazes de cuidar de si mesmas.

Então, tenho que acreditar que o movimento feminista antecipa essa mudança. As feministas escrevem isso em seus livros há anos! O feminismo espera ansioso o dia em que o patriarcado vai ruir e permitir que homens e mulheres, livres e iguais, reconfigurem suas relações e as tornem contratos bilaterais.

E, independente do que já foi dito antes, os homens são livres. Mesmo que, em um nível mais elevado de discussão, tragamos a heternormatividade como uma forma de opressão até mesmo masculina, os homens são criados para dominar e serem livres. Os meninos são criados para assumir funções masculinas, que incluem mandar, chefiar, pensar. Sim, pensar. As mulheres não são criadas para pensar, historicamente nunca foram. Os papeis que o patriarcado espera de homens e mulheres começam a ser desenhados na infância e os meninos desde sempre sabem que possuem sua liberdade. Homens são livres para trabalhar no que quiserem, para vestir o que quiserem, para fazer sexo como quiserem, para comandar sem ser comandados.

A liberdade dos homens é um fato histórico. A liberdade das mulheres é objeto de uma luta secular. Esses homens livres são os que oprimem e objetificam as mulheres, a eles submissas.

O articulista também sugere que os homens poderão ficar “frouxos”, indecisos sobre sua masculinidade, inseguros e incapazes de tomar decisões. Esse discurso, somado ao fato dele dizer que homens “inteligentes” não vão mais querer saber das mulheres, sugere que 1) homens heterossexuais são burros e homens homossexuais ou assexuados são inteligentes e 2) homens, ao deixar de dominar as mulheres e tratá-las como escravas sexuais, perderão a sua identidade.

Sem adentar muito no mérito, esse discurso não é apenas machista, ele é heteronormativo. Ele se sustenta no “homem de verdade é macho, bruto, truculento, grosseiro, ignorante, dominador”. Senso comum do patriarcado. Esse não é o único texto do filósofo que sugere esse estereótipo do homem vigoroso, robusto, corajoso, forte, o que me faz perceber que ele acredita nessa concepção de que o homem precisa desses atributos para ser alguém, independente de quantos ele prejudique ou oprima no processo.

Esse padrão heteronormativo é agressivo, traça exigências rigorosas para homens e mulheres seguirem, caso contrário não serão homens e mulheres “de verdade”. O feminismo é um movimento que busca a ruptura com esse padrão, que busca uma reconfiguração das relações entre gêneros que levará ao desmoronamento da heteronormatividade, que não tem como se sustentar fora de um sistema como o patriarcal. E o texto do articulista, alinhado com o padrão heternormativo de homem, também parece ignorar isso – que o feminismo luta para romper com esse estigma.

Ainda, o patriarcado sustenta exatamente que os homens são inteligentes, as mulheres não. As mulheres são naturalmente menos capazes que os homens em praticamente tudo, com exceção das atividades domésticas, pois elas são exclusividade feminina. Os homens são poderosos e donos do mundo. Então, não entendo de o articulista sugerir que o feminismo vai fazer os homens mais inteligentes nem a conexão disso com o interesse sexual. Não é ironia, não entendo, mesmo. O que vejo nesse argumento (ou falta dele) é que o autor do texto não sabe exatamente nada sobre o movimento que ele tenta deslegitimar.

Para completar, o articulista finaliza o texto com uma frase impactante: as mulheres livres querem respeito, homens livres querem doçura. Essa simples afirmação é suficiente para sustentar toda a opressão do patriarcado sobre as mulheres e deslegitimar décadas de luta por igualdade e liberdade. E foi o que o articulista fez.

Ao sugerir que as mulheres estão muito agressivas e que os homens desejarão mulheres mais suaves, mais dóceis, mais gentis, ele retoma todo o arquétipo da mulher histórica do patriarcado. A mulher é feminina, é delicada, é gentil, é generosa – esse estereótipo vem acompanhando o gênero feminino há muito tempo e precisa ser desconstruído. Demolido. Assim como homens são viris, brutos, fortes, inabaláveis, dominadores, ogros – esse é outro padrão combatido à exaustão pelo feminismo, pelo qual o articulista demonstra um certo fetiche. Pessoas não nascem com essas características, que são históricas e culturais, não biológicas. Esses papeis só servem para provocar e legitimar desigualdade de tratamento entre homens e mulheres, o que não tem nenhuma base natural, apenas sociocultural.

Mulheres não são naturalmente delicadas, mães, gentis, femininas. Aliás, o feminino não precede ao nascimento, nem poderia. Feminino é qualidade atribuída à pessoa depois que ela nasce, de acordo com padrões sociais e culturais desejados. Mulheres não são naturalmente burras ou menos inteligentes ou capazes que homens – mulheres deixaram de ter a oportunidade de ser educadas e foram impedidas de assumir tarefas criativas durante décadas. Mulheres não nascem ansiando por homens nem pelo casamento nem pela maternidade, não há uma relação intrínseca entre a felicidade da mulher e “encontrar um homem que as satisfaça”. Tudo isso é inculcado em meninas desde que elas nascem para que cresçam pensando que só serão completas caso encontrem um homem bom e se casem (mito do amor romântico). Tudo isso é imposto às mulheres por uma sociedade patriarcal que precisa que elas acreditem que, sem homens, elas não sobreviverão.

O articulista ameaça as mulheres dizendo que, livres, elas estarão sozinhas. Não. Livres, elas serão apenas livres. Felizes. Emancipadas. Donas de sua própria vida e fazendo suas próprias escolhas. Inclusive a escolha de ficar sozinha – pois essa é uma escolha válida.

A Humanidade não vai acabar, há tantas pessoas na Terra que já se fala em riscos ambientais severos em alguns anos. Os homens, não os subestimo. Os homens, também livres da sujeição da heteronormatividade, agradecerão.