Uma réplica a um discurso machista.

Inicio essa publicação informando que meu texto de hoje é uma réplica a um texto escrito por Luis Felipe Pondé, publicado no dia de hoje (23.01.17) na Folha. Lembro-me que sempre me incomodou o fato da academia brasileira ser tão sensível, de ninguém criticar ninguém abertamente, de não se provocar o debate científico. Em meus estudos utilizando pensadores norte-americanos, sempre que um artigo me atraía ele acaba sendo a réplica a outro artigo, e com isso eu via o conhecimento científico sendo produzido. Ciência social não se faz placidamente, mas com muito debate e argumentação.

Pois Pondé, que possui um currículo acadêmico irrepreensível, escreveu, sem qualquer aparente motivo científico, um texto machista e com tantos argumentos equivocados que merece uma réplica. Afinal, frente esse tipo de texto, temos apenas duas opções: calar-nos ou debater. Como eu nunca me calo, decidi colocar aqui a minha pequeníssima contribuição para a discussão.

Preliminarmente, informo que não gosto de dar mídia a esse tipo de texto, mas que é impossível admitir um debate honesto sem que ele seja lido por quem desejar. Portanto, se você, leitor, ainda não teve contato com o texto que estou replicando hoje, pode clicar aqui para ler.

Resumidamente, o articulista argumenta que a emancipação feminina, como desejada pelos movimentos feministas, levará à extinção da raça humana. Ele explica que os homens, para “dar conta” das mulheres contemporâneas, terá que se tornar inteligente, e, com isso, vai perder o interesse nas mulheres, que terão que se esforçar muito para se tornarem interessantes para qualquer homem. Com isso, haverá menos casais heterossexuais, as mulheres serão obrigadas a procurar relacionamentos homossexuais, haverá menos filhos e, com isso, logo a raça humana estará extinta.

Bem, essas são minhas palavras, mas o texto dele disse exatamente isso. Demorei algum tempo para ler tudo pois, a cada parágrafo, eu duvidava que alguém da categoria acadêmica de Pondé tivesse escrito algo tão estilo teorias da conspiração machista como isso. Mas o texto está lá, assinado por ele, então preciso presumir que seja verídico. E, também, lembrei-me que erudição não livra ninguém das garras do patriarcado.

O articulista demonstra desconhecimento da luta feminista ao dizer que o homem vai se libertar e não vai mais querer saber das mulheres. Faço aqui um grande parêntese para situar o leitor: o feminismo é um movimento de mulheres, mas a libertação da mulher terá como consequência a libertação do homem. O patriarcado é um sistema complexo de opressão e as mulheres podem ser as maiores vítimas, porém não as únicas. As relações classe-sexo-raça estão imbricadas, homens jovens e crianças também sofrem dominação, assim como a situação de mulheres negras é mais grave do que a de mulheres brancas, apenas como exemplo.

Claro que o homem vai se libertar, isso decorre da libertação feminina e é esperado pelo movimento feminista. A ruptura do sistema patriarcal levará ao desmoronamento da heteronormatividade e seus estereótipos estigmatizantes, o que levará, obrigatoriamente, a uma reconfiguração das relações de sexo e gênero. O movimento feminista anseia por esse homem que respeitará a mulher, que não mais a enxergará como objeto sexual, que não mais terá o casamento como um contrato sexual “de adesão” em que a mulher serve apenas para cuidar da família e reproduzir.

Já disse antes em outro texto, mas não custa repetir: não é possível repensar o sistema e romper com o patriarcado sem repensar as relações familiares. O sistema familiar (patriarcal) de reprodução social é opressor e coloca mulheres em posição de objeto. A mulher é posse, é reprodutora de herdeiros e mão de obra gratuita, é um ser não pensante e não capaz de realizar outras tarefas que não as domésticas. A ideia de que mulheres anseiam naturalmente ser donas de casa e mães é inculcação do patriarcado, e a ideia de que mulheres precisam de homens para sobreviver também é. As relações familiares patriarcais são injustas em uma perspectiva de gênero e colocam as mulheres sempre em posição de submissão, sem escolha, sem liberdade para tomar as próprias decisões, dependentes de maridos e companheiros, incapazes de cuidar de si mesmas.

Então, tenho que acreditar que o movimento feminista antecipa essa mudança. As feministas escrevem isso em seus livros há anos! O feminismo espera ansioso o dia em que o patriarcado vai ruir e permitir que homens e mulheres, livres e iguais, reconfigurem suas relações e as tornem contratos bilaterais.

E, independente do que já foi dito antes, os homens são livres. Mesmo que, em um nível mais elevado de discussão, tragamos a heternormatividade como uma forma de opressão até mesmo masculina, os homens são criados para dominar e serem livres. Os meninos são criados para assumir funções masculinas, que incluem mandar, chefiar, pensar. Sim, pensar. As mulheres não são criadas para pensar, historicamente nunca foram. Os papeis que o patriarcado espera de homens e mulheres começam a ser desenhados na infância e os meninos desde sempre sabem que possuem sua liberdade. Homens são livres para trabalhar no que quiserem, para vestir o que quiserem, para fazer sexo como quiserem, para comandar sem ser comandados.

A liberdade dos homens é um fato histórico. A liberdade das mulheres é objeto de uma luta secular. Esses homens livres são os que oprimem e objetificam as mulheres, a eles submissas.

O articulista também sugere que os homens poderão ficar “frouxos”, indecisos sobre sua masculinidade, inseguros e incapazes de tomar decisões. Esse discurso, somado ao fato dele dizer que homens “inteligentes” não vão mais querer saber das mulheres, sugere que 1) homens heterossexuais são burros e homens homossexuais ou assexuados são inteligentes e 2) homens, ao deixar de dominar as mulheres e tratá-las como escravas sexuais, perderão a sua identidade.

Sem adentar muito no mérito, esse discurso não é apenas machista, ele é heteronormativo. Ele se sustenta no “homem de verdade é macho, bruto, truculento, grosseiro, ignorante, dominador”. Senso comum do patriarcado. Esse não é o único texto do filósofo que sugere esse estereótipo do homem vigoroso, robusto, corajoso, forte, o que me faz perceber que ele acredita nessa concepção de que o homem precisa desses atributos para ser alguém, independente de quantos ele prejudique ou oprima no processo.

Esse padrão heteronormativo é agressivo, traça exigências rigorosas para homens e mulheres seguirem, caso contrário não serão homens e mulheres “de verdade”. O feminismo é um movimento que busca a ruptura com esse padrão, que busca uma reconfiguração das relações entre gêneros que levará ao desmoronamento da heteronormatividade, que não tem como se sustentar fora de um sistema como o patriarcal. E o texto do articulista, alinhado com o padrão heternormativo de homem, também parece ignorar isso – que o feminismo luta para romper com esse estigma.

Ainda, o patriarcado sustenta exatamente que os homens são inteligentes, as mulheres não. As mulheres são naturalmente menos capazes que os homens em praticamente tudo, com exceção das atividades domésticas, pois elas são exclusividade feminina. Os homens são poderosos e donos do mundo. Então, não entendo de o articulista sugerir que o feminismo vai fazer os homens mais inteligentes nem a conexão disso com o interesse sexual. Não é ironia, não entendo, mesmo. O que vejo nesse argumento (ou falta dele) é que o autor do texto não sabe exatamente nada sobre o movimento que ele tenta deslegitimar.

Para completar, o articulista finaliza o texto com uma frase impactante: as mulheres livres querem respeito, homens livres querem doçura. Essa simples afirmação é suficiente para sustentar toda a opressão do patriarcado sobre as mulheres e deslegitimar décadas de luta por igualdade e liberdade. E foi o que o articulista fez.

Ao sugerir que as mulheres estão muito agressivas e que os homens desejarão mulheres mais suaves, mais dóceis, mais gentis, ele retoma todo o arquétipo da mulher histórica do patriarcado. A mulher é feminina, é delicada, é gentil, é generosa – esse estereótipo vem acompanhando o gênero feminino há muito tempo e precisa ser desconstruído. Demolido. Assim como homens são viris, brutos, fortes, inabaláveis, dominadores, ogros – esse é outro padrão combatido à exaustão pelo feminismo, pelo qual o articulista demonstra um certo fetiche. Pessoas não nascem com essas características, que são históricas e culturais, não biológicas. Esses papeis só servem para provocar e legitimar desigualdade de tratamento entre homens e mulheres, o que não tem nenhuma base natural, apenas sociocultural.

Mulheres não são naturalmente delicadas, mães, gentis, femininas. Aliás, o feminino não precede ao nascimento, nem poderia. Feminino é qualidade atribuída à pessoa depois que ela nasce, de acordo com padrões sociais e culturais desejados. Mulheres não são naturalmente burras ou menos inteligentes ou capazes que homens – mulheres deixaram de ter a oportunidade de ser educadas e foram impedidas de assumir tarefas criativas durante décadas. Mulheres não nascem ansiando por homens nem pelo casamento nem pela maternidade, não há uma relação intrínseca entre a felicidade da mulher e “encontrar um homem que as satisfaça”. Tudo isso é inculcado em meninas desde que elas nascem para que cresçam pensando que só serão completas caso encontrem um homem bom e se casem (mito do amor romântico). Tudo isso é imposto às mulheres por uma sociedade patriarcal que precisa que elas acreditem que, sem homens, elas não sobreviverão.

O articulista ameaça as mulheres dizendo que, livres, elas estarão sozinhas. Não. Livres, elas serão apenas livres. Felizes. Emancipadas. Donas de sua própria vida e fazendo suas próprias escolhas. Inclusive a escolha de ficar sozinha – pois essa é uma escolha válida.

A Humanidade não vai acabar, há tantas pessoas na Terra que já se fala em riscos ambientais severos em alguns anos. Os homens, não os subestimo. Os homens, também livres da sujeição da heteronormatividade, agradecerão.

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A discriminação oculta no humor depreciativo e a violência de gênero

Ontem, nas minhas andanças pelas redes sociais, deparei-me com colegas discutindo sobre uma publicação que apresentava dois livros de piadas. Um, azul, era “Piadas sobre meninas – para meninos lerem”. Outro, rosa, era “Piadas sobre meninos – para meninas lerem”. A discussão tinha dois focos distintos: 1) O machismo descarado do livro azul, que reforçava diversos estereótipos falsos sobre mulheres e que incitava a violência de gênero e o bullying e 2) Os motivos que levavam a discussão focar no livro azul, já que o livro rosa era igualmente ofensivo e incitava o bullying de meninas contra meninos, o que poderia dar tão errado quanto o inverso. Prometi a um amigo que falaria aqui sobre isso, mas é tanta coisa para ser dita que precisei de um tempo para esquematizar o texto. Vamos lá.

Primeiramente, fora Temer. Segundamente, precisamos entender que a desigualdade de gênero, assim como a violência de gênero, especificamente no âmbito da violência contra mulheres, é um problema de educação. Não temos poucas leis, ou leis brandas demais, ou pouca punição para agressores. O que temos é a insistente permanência de um modelo social patriarcal que submete as mulheres e as coisifica, que as coloca como seres naturalmente inferiores aos homens, que banaliza o feminino. Esse modelo é secular e já está tão enraizado culturalmente que nem mesmo conseguimos enxergá-lo.

Esse modelo heternormativo de inferiorização e imbecilização da mulher é cultural. Ele pode ser substituído por outro, claro, mas, para isso, temos que, primeiro, admitir que ele existe. Temos que admitir que, em pleno Século XXI, mulheres ainda são tratadas como desiguais e submissas ao homem. Temos que admitir que, mesmo depois de tanta evolução, mulheres ainda são assassinadas por se separarem de seus companheiros, estupradas por usarem shorts, ridicularizadas por serem mulheres. Se aceitarmos isso, estamos em um caminho.

Depois, precisamos mudar a forma de educar nossas crianças. Simone de Beauvoir, em sua mais festejada obra “O Segundo Sexo”, explicou graficamente como a educação de meninos e meninas sustenta e legitima o patriarcado e a desigualdade de gêneros. O menino, criado para ser livre, tem o mundo como limite para o seu ser. A menina é domesticada e docilizada, fragilizada, confinada a um universo restrito ao lar e seus afazeres. Educados dessa forma, eles e elas crescem “sabendo o seu lugar”: o menino é o todo-poderoso que ocupa os espaços públicos e é membro integrado da sociedade. O menino é o cidadão, ele é politizado e talhado para ser quem quiser ser. Já a menina é “do lar”. Ela foi criada para ser esposa e mãe, apenas. Essas foram as opções dadas a ela; a menina acredita que ela é naturalmente as duas coisas.

Para Susan Moller Okin, nada vai mudar enquanto não mudarmos a forma como a mulher é enxergada no espaço familiar (o privado). Não é suficientemente eficaz compreender que a mulher tem espaço na sociedade (pode ocupar os espaços públicos, nas palavras de Hannah Arendt), que tem direito a voto, direito de trabalhar, direito de estar representada em espaços políticos se continuarmos a tratá-la como incapaz, frágil e submissa no âmbito da família. Se a menina continua sendo criada para ser mãe e esposa, se os papéis atribuídos a ela continuam sendo os de mera coadjuvante no universo, que é masculino, o patriarcado continuará ali, sendo o modelo definidor de nossa sociedade.

Por que esse discurso preliminar sobre criação de meninos e meninas? Porque ele tem tudo a ver com as razões de existir dos livros em debate. As piadas do livro azul são a reprodução insistente de estereótipos de gênero que colocam a mulher no lugar que o patriarcado espera que ela esteja. Só que essas piadas não são engraçadas. Elas não são para fazer rir, são a representação do que a sociedade patriarcal determina sobre mulheres em uma tentativa de “catequizar” os meninos para que eles acreditem na mesma coisa. Alguns exemplos do livro azul:

Por que a estátua da liberdade é mulher? Porque precisavam de uma cabeça oca para colocar o mirante.

Como se chama uma menina com meio cérebro? Superdotada.

O que são vinte garotas colocadas em fila, orelha com orelha? Um túnel de vento.

O que essas supostas piadas representam? A mulher não é inteligente, não tem capacidade de pensar, é naturalmente burra. Isso não é verdade mas, mesmo que saibamos disso, continuamos a repetir como se fosse engraçado. É lavagem cerebral que fazemos em meninos para que eles acreditem nisso. E fazemos essa lavagem cerebral nas meninas também, para que elas mesmas se achem menos capazes. Com isso, alijamos as mulheres dos espaços públicos, da política, do empreendedorismo, do mercado, pois elas não são boas o suficiente para isso, não são espertas, não são “talhadas” para essas atividades. Mulheres ficam em casa, cuidando dos afazeres domésticos, que é o que elas sabem fazer bem.

Alguns vão dizer que o mundo está chato. Aliás, ouço isso com frequência sempre que me insurjo contra piadas-bullying machistas, racistas, gordofóbicas, homofóbicas, transfóbicas, etc. Quando digo que esse tipo de piada está no século retrasado, sou rotulada de feminazi chata. Não, o mundo não está chato. É que esse tipo de piada nunca teve graça para as minorias nelas representadas. Esse tipo de piada só teve graça até hoje entre as maiorias que oprimem. A diferença de alguns anos atrás para o hoje talvez seja a voz. Minorias que sempre foram ridicularizadas em piadas não estão mais caladas. E a voz dos oprimidos incomoda demais aqueles que desejam permanecer no status quo de sua dominância.

Sobre a discussão que leva à ênfase exacerbada ao livro azul sem menção ao livro rosa, também quero dar a minha contribuição. Não podemos excluir os homens do movimento feminista. Não podemos usar o movimento feminista, que busca colocar fim a séculos de desigualdade de gênero, como forma de exclusão, pois não estaremos atingindo os objetivos do movimento. Homens podem propagar o feminismo assim como mulheres podem propagar o machismo (e o fazem diariamente). Se excluirmos os homens dos debates feministas eles não poderão fazer parte do processo de reconstrução do modelo de sociedade, esse modelo igualitário que desejamos.

Da mesma forma, não podemos ignorar o bullying praticado por mulheres contra homens. Alguns e algumas me dizem que é “chumbo trocado” e que os homens estariam “provando do próprio remédio”, mas eu não consigo ver dessa forma. Uma agressão injusta não legitima outra agressão injusta em troca, como se uma anulasse a outra e ninguém saísse prejudicado. Uma sociedade melhor não será construída com ofensas que só servem para agravar as desigualdades entre gêneros. O livro rosa é tão ofensivo e tão desnecessário quanto o livro azul, e merece ser repudiado da mesma forma.

Precisamos parar de ensinar os dogmas do patriarcado para nossos meninos e nossas meninas. Precisamos desconstruir o machismo por meio da educação, eliminando estereótipos de gênero e papéis de gênero que não se sustentam empiricamente. E precisamos fazer isso educando tanto meninos quanto meninas. O feminismo é uma via complexa de mudança, e essa mudança só será conquistada com muito esforço conjunto.


Referências desse texto:

ARENDT, H. A condição humana. 10. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007.

BEAUVOIR, S. O segundo sexo. Versão digital. 2.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.

OKIN, S. M. Women in western political though. Princeton: Princeton University Press, 2013.

_______. Gênero, o público e o privado. Estudos Feministas. V. 16. N. 02. Florianópolis, mai/ago 2008. Pp. 305-332.