Sem preconceito

A discussão de hoje sobre trabalhos acadêmicos foca na busca por referências bibliográficas teóricas em pesquisa jurídica. Esse é um tema recorrente nas aulas e tenho percebido algum preconceito entre professores (não exatamente pesquisadores) que reproduzem concepções antigas e desatualizadas da ciência.

Inicialmente, preciso ressaltar que já ouvi diversas vezes que jurista não sabe fazer pesquisa científica nem escrever artigo científico. Não pretendo, aqui, tratar desse assunto, pois ele me coloca em uma situação na qual não consigo me posicionar definitivamente. O problema parece residir no fato de que a pesquisa jurídica, no Brasil, por muito tempo reduziu-se à análise e reanálise de teorias, todas baseadas exclusivamente em levantamentos bibliográficos. O abstratismo do Direito não é uma exclusividade da pesquisa, a academia padece do mesmo mal, dedicando espaço às teorias jurídicas desconectadas do mundo real (nesse sentido, recomendo a leitura dos textos de Lênio Streck sobre ensino jurídico em terrae brasilis).

Se o jurista fazia uma pesquisa pouco robusta, hoje isso tem mudado, mesmo que nem sempre essa mudança seja percebida. O Direito admitiu a interdisciplinaridade e saiu dos bancos da academia para as ruas. Há certo abandono do positivismo; a norma jurídica é importante, mas não tanto. Filosofia, sociologia, literatura, arte – tudo dialoga com o Direito na contemporaneidade. Esse ainda é um caminho a ser percorrido, mas ele já foi descoberto.

Juntamente a essa revolução na pesquisa científica jurídica, a tecnologia colocou as pessoas muito mais em contato e fez com que a informação se propagasse em velocidade quase alucinante. Hoje a informação está em nossas mãos no momento em que queremos – nos celulares e tablets, em qualquer lugar. Ao mesmo tempo que temos muito e nem sempre sabemos o que fazer com isso, a pesquisa científica jurídica está muito mais ao alcance de todos.

Muitos excelentes pesquisadores e criadores do Direito adotaram o meio virtual como o oficial para propagar suas ideias e resultados. Muitos veículos científicos de qualidade não possuem versão impressa. O material científico digitalmente distribuído vem mais rápido, é mais barato e sustentável. Então, como recusar essa fonte quase inesgotável de conhecimento que se revela para nós?

Deixemos de lado o preconceito. Não há qualquer problema em buscar teorias e pesquisas jurídicas online, e não há qualquer demérito em utilizar-se dessas fontes virtuais para trabalhos acadêmicos. Importa verificar a qualidade do texto, se o periódico é qualificado, se o autor é referenciado.

Brindemos à circulação livre do pensamento científico.

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