Ainda sobre o prêmio Nobel de literatura em 2016

Bob Dylan, que ninguém duvida ser um grande talento da música, levou o prêmio Nobel de literatura esse ano. Segundo os responsáveis pela escolha, ele produz “poesia para os ouvidos”.

Isso é verdade, ele realmente canta músicas de muito significado. O problema: ele não é escritor, literato, ligado à literatura. Então, por que afinal ganhou um prêmio de literatura?

Acredito que muitos saibam que esses prêmios são muito mais políticos do que justos. Estamos acostumados ao Oscar, que exclui filmes excelentes ou deixa de premiá-los por motivos que nunca vamos entender. Ficamos indignados, blasfemamos, mas, no final, “o prêmio é deles” e eles acabam dando a estatueta para quem quiserem.

No Nobel da literatura, experimentamos o mesmo sabor de ver uma premiação aparentemente injusta. Bob Dylan é um talento, mas da música. Merece ser premiado pela indústria da música, receber os holofotes voltados para a sua arte. Premiá-lo por algo que ele não faz nem fez é injusto de muitas formas, tanto com os que foram excluídos quanto com ele mesmo. O “pessoal da literatura” reagiu imediatamente – que os responsáveis por escolher os premiados tenham mais respeito pelos que se dedicam à literatura, da próxima vez.

Isso me leva a refletir – o que podemos fazer para mudar isso? A literatura precisa de mais representatividade, de mais valorização, de vozes que sejam ouvidas? Se sim, como vamos fazer com que os prêmios sejam dados àqueles que os merecem? E mais: será que a literatura não está desvalorizada exatamente porque ela não se valoriza?

Não sei essa resposta, mas não entendo que falar mal do prêmio, em si, resolva a questão. Claro que podemos criticar e reclamar do resultado, mas isso não serve, a meu ver, para mudar o cenário nem a médio prazo. Acredito que, no Brasil, temos vivenciado essa realidade quando observamos livros de pseudo celebridades que vendem mais do que qualquer outro, quando lidamos com editoras gráficas que só pensam em arrancar dinheiro dos autores deslumbrados, quando temos academias de letras compostas por todo tipo de pessoas, menos escritores.

A valorização da literatura fica prejudicada quando ela é preterida em sua essência. No Brasil é difícil “viver da escrita” porque escrever não é visto como profissão. Ainda, há uma resistência à profissionalização do mercado literário, que é repleto de aventureiros e escritores que acham que nasceram sabendo escrever. E, para completar, temos uma explosão de editoras que cobram horrores dos autores para publicá-los, embarcando em uma tendência nacional: todo mundo quer publicar e ninguém quer esperar para publicar. Essas editoras não passam de gráficas que oferecem serviços caríssimos para os desesperados em ver seu nome em um livro, e contribuem para derrubar a qualidade do material disponibilizado para o público.

Claro que temos gente demais escrevendo, principalmente depois da popularização dos meios de autopublicação. Mas é preciso entender que nem todo mundo que escreve uma história no Wattpad vai lançar um livro. Nem todo mundo vai interessar a uma editora (as sérias, que fazem o trabalho que assumiram – publicar livros e remunerar autores por isso) e nem todo mundo vai vender como os best-sellers. Nem é qualidade que rege esse mercado, mas, a verdade, é que tem muito mais história por aí do que teremos editoras interessadas em publicá-las.

Some-se a tudo isso a valorização dada a celebridades que fazem de tudo, menos escrever, mas que decidiram publicar um livro porque isso é legal. Esse pessoal atrai as editoras sérias, porque eles vendem simplesmente pelo que são – não exatamente pela qualidade do que produzem. Aí voltamos ao quadro “Bob Dylan recebe o prêmio Nobel de literatura”, em que qualquer um e qualquer coisa acaba tendo mais valor que o escritor e sua obra.

A mudança tem que começar em nós, escritores. Temos que nos unir em prol de um mercado literário mais justo e de mais qualidade. Temos que formar nossos grupos de cooperação, rejeitar o assédio de exploradores, evoluir sempre, buscar ferramentas para superar as dificuldades. Temos que dar voz aos que nos representam e rejeitar essa desvalorização naturalizada da literatura. Vamos apontar os problemas do mercado, vamos nos ajuntar para resolvê-los, vamos fazer algo diferente – porque, do jeito que está aí, podemos decretar o fim da literatura como arte autônoma.

#onobeldeliteraturanãomerepresenta

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